Conhecendo a flora nativa do Planalto de Poços de Caldas: Myrtaceae

Conhecendo a flora nativa do Planalto de Poços de Caldas: Myrtaceae

Angela Liberali Pinheiro

No Brasil a família Myrtaceae abrange 23 gêneros, sendo 4 endêmicos; 1010 espécies, dessas 770 endêmicas (FLORA, 2020), caracterizam-se por folhas inteiras simples e coriáceas (1), opostas (2) ou alternas (apenas gêneros não nativos), com margem inteira (3), com pontuações translúcidas no limbo foliar (4), geralmente peninérveas (5), como pode ser observado nas Figuras 1 e 2 dispostas a seguir. (CRUZ, 2012).

Figura 1: Morfologia vegetal da espécie Eugenia arenosa, apresentando as características morfológicas da família Myrtaceae. Fonte: Arquivo pessoal, Angela Liberali Pinheiro.

 

Ocorre nas 5 regiões do país e em 6 Domínios Fitogeográficos brasileiros, Amazônia, Caatinga, Cerrado, Mata Atlântica, Pampas e Pantanal, dentre esses destaca-se a Mata Atlântica com maior ocorrência de espécies (FLORA, 2020). São exemplos de frutíferas dessa família, a goiaba (Psidium guajava), a jabuticaba (Plinia cauliflora), a pitanga (Eugenia uniflora), o araçá (Psidium cattleyanum), dentre outras. 

 

Figura 2: Morfologia vegetal da espécie Eugenia arenosa, apresentando as características morfológicas da família Myrtaceae. Fonte: Arquivo pessoal, Angela Liberali Pinheiro.

 

Está entre as famílias mais citadas em estudos florísticos e fitossociológicos (SOBRAL, 2003) na América do Sul, sendo representada principalmente por espécies frutíferas que exibem importância ecológica para os ecossistemas florestais, devido a polinização principalmente por abelhas e a dispersão dos seus frutos carnosos por diversas espécies de frugívoros, sendo um importante recurso para a manutenção da biodiversidade faunística da Mata Atlântica. Além de sua relevância ecológica, têm importância na indústria alimentícia, cosmética e de perfumaria, além do emprego na medicina popular (CRUZ, 2012). 

Nesse texto vamos abordar dois gêneros – Eugenia L., e Campomanesia Ruiz et Pav., eles abrangem algumas espécies frutíferas endêmicas que são pouco conhecidas, ou seu conhecimento permaneceu restrito na sabedoria das comunidades locais, dos técnicos e dos estudiosos da área da botânica.

O gênero Eugenia L. possui aproximadamente 378 espécies aceitas no Brasil, sendo 289 endêmicas com distribuição por todo o país (FLORA, 2020), no entanto o gênero se destaca com grande riqueza em espécies arbóreas nas Florestas Ombrófilas e Semidecíduas da Mata Atlântica. Caracteriza-se pelo hábito arbóreo ou arbustivo (3-12 metros de altura), são glabros ou com indumento de tricomas simples, flores tetrâmeras com pétalas brancas raramente rosadas e os frutos são bagas com sépalas persistentes (SOBRAL et al. 2014). Seu cultivo é apreciado devido aos frutos comestíveis e também por suas flores vistosas, por isso muitas espécies são utilizadas na ornamentação (LORENZI, 2012).

O gênero Campomanesia Ruiz et Pav. abrange 36 espécies, sendo 26 endêmicas, a maior parte dessas encontram-se na Mata Atlântica seguida do Cerrado (FLORA,2020). Caracteriza-se pelo hábito arbóreo ou arbustivo (0,5 a 27 metros de altura), folhas opostas membranáceas, com inflorescências ou flores solitárias, fruto em baga com sépalas persistentes, amarelo ou alaranjado (OLIVEIRA et al. 2012). São amplamente usadas pela população e podem ser consumidas in natura ou usadas para sucos e doces, além de seu uso na medicina popular com a infusão de suas folhas, cascas e talos. (CARDOSO et al. 2013).

As espécies abordadas serão Eugenia arenosa, que recebe o nome popular de Perinha do Campo (1); a Eugenia itaguahiensis, cujo nome popular é Grumixama Mirim (2); e Campomanesia pubescens, a Gabiroba do Campo (3). Os frutos destas espécies podem ser observados na figura 3 abaixo.

  

Figura 3: Frutos das espécies Eugenia arenosa (1), Eugenia itaguahiensis (2), e Campomanesia pubescens (3). Fonte: Arquivo pessoal, Angela Liberali Pinheiro.

 

A espécie Eugenia arenosa, Perinha do Campo, é um arbusto de 0,5 a 2,5 metros, com tricomas simples, folha oblanceolada, inflorescência com 2 a 6 flores brancas, fruto piriforme e amarelo quando maduro. Sua frutificação ocorre entre os meses de outubro-novembro. Constitui-se como uma espécie endêmica de ampla distribuição, nos estados do Paraná, Rio Grande do Sul, Mato Grosso do Sul, São Paulo e Minas Gerais, com populações disjuntas. E. arenosa é considerada como pouco preocupante (LC) em relação ao risco de ameaça. No entanto, os remanescentes de Cerrado e Campos nativos onde a espécie ocorre, são ameaçados devido à expansão de atividades agropecuárias, à invasão de espécies exóticas e à expansão urbana (CNCFlora, 2020; FLORA, 2020).

A espécie Eugenia itaguahiensis, Grumixama mirim, é uma árvore de 2 a 4 metros de altura, com flores solitárias, frutos em bagas arredondadas negras e com sépalas persistentes e mesocarpo carnoso. Sua maturação ocorre nos meses de setembro-outubro, os frutos são consumidos in natura e na forma de doces (LORENZI, 2006). Constitui-se como uma espécie endêmica de distribuição restrita, e é uma espécie não avaliada (NE) quanto ao nível de ameaça (FLORA, 2020).

A espécie Campomanesia pubescens, Guabiroba do campo, é um arbusto de 1 a 2 metros de altura que ocorre normalmente em moitas, com folhas coriáceas, pedúnculos densamente pubescentes e flores brancas solitárias. A planta é considerada melífera e ornamental, devido a desfolha no período de floração e o conseguinte revestimento por flores brancas, a floração ocorre entre os meses de agosto-setembro (DOUSSEAU, 2011; FLORA, 2020). Os frutos amadurecem nos meses de novembro-dezembro, apresenta uma polpa suculenta de sabor acidulado, os frutos podem ser consumidos in natura, na forma de sucos e doces. Constitui-se uma espécie endêmica de ampla distribuição mais precisamente nos Domínios Fitogeográficos da Caatinga, Cerrado e Mata Atlântica. C. pubescens é uma espécie pouco preocupante (LC) em relação ao risco de extinção.

 

Referências

 

Campomanesia In: Flora do Brasil 2020 em construção. Jardim Botânico do Rio de Janeiro. Disponível em: http://floradobrasil.jbrj.gov.br/reflora/floradobrasil/FB10307. Acesso em: 06 mai. 2020.

 

CARDOSO, C. A. L.; SALVADOR, M. J.; CARVALHO, J. E.; COELHO R. G. Avaliação das atividades antiproliferativa e antioxidante em frutos de Campomanesia pubescens. Revista do Instituto Adolfo Lutz, v. 72, n. 4, p. 309-315, 2013.

 

CNCFLORA. Eugenia arenosa In: Lista Vermelha da flora brasileira: versão 2012.2 Centro Nacional de Conservação da Flora. Disponível em: <http://cncflora.jbrj.gov.br/portal/pt-br/profile/Eugenia arenosa>. Acesso em 30 abr. 2020.

 

CRUZ, F. D. Sistemática e filogenética molecular do gênero Hexachlamys (Myrtaceae): através do uso de marcadores plastidiais e nucleares. 2012. Tese de mestrado, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2012. 

 

OLIVEIRA, D. M. I. U.; FUNCH, L. S.; LANDRUM, L. R. Flora of Bahia: Campomanesia (Myrtaceae). Sitientibus série Ciências Biológicas, v.12, n.1, p. 91-107, 2012

 

DOUSSEAU, S.; ALVARENGA, A. A. D.; GUIMARÃES, R. M.; LARA, T. S.; CUSTÓDIO, T. N.; CHAVES, I. D. S. Ecofisiologia da germinação de sementes de Campomanesia pubescensCiência Rural, v. 41 n. 8, p. 1362-1368, 2011.

 

Eugenia In: Flora do Brasil 2020 em construção. Jardim Botânico do Rio de Janeiro. Disponível em: http://www.floradobrasil.jbrj.gov.br/reflora/floradobrasil/FB36942. Acesso em: 30 abr. 2020

 

GUERRERO, F. M. G.; ZIMMERMAN, L. R.; CARDOSO, E. V.; LIMA, C. A.; PERDOMO, R. T.; ALVA, R.; GUERRERO, A. T. Investigação da Toxicidade Crônica das Folhas de Guavira (Campomanesia pubescens) em Ratos Machos. Fundação Oswaldo Cruz, 2013.

 

LORENZI, H. Árvores brasileiras: manual de identificação e cultivo de plantas arbóreas do Brasil. São Paulo: Instituto Plantarum de Estudos da Flora, v. 2, 1998.

 

LORENZI, H.; BACHER, L.; LACERDA, M.; SARTORI, S. Frutas brasileiras e exóticas cultivadas (de consumo in natura). São Paulo: Instituto Plantarum de Estudos da Flora640, 2006.

 

Myrtaceae In: Flora do Brasil 2020 em construção. Jardim Botânico do Rio de Janeiro. Disponível em: http://reflora.jbrj.gov.br/reflora/floradobrasil/FB171. Acesso em: 05 mai. 2020



SOBRAL, M. A Família Myrtaceae no Rio Grande do Sul. Universidade do Vale do Rio dos Sinos. São Leopoldo: Editora Unisinos. Coleção Fisionomia Gaúcha, 2003.

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