Pesquisa e Conservação

Implantação da coleção histórica do Jardim Botânico de Poços de Caldas através do resgate da obra do botânico sueco Anders Frederic Regnell (1807 – 1884) para a conservação da flora original da região.

A missão da Fundação Jardim Botânico de Poços de Caldas é atuar na conservação da flora, em especial a do Planalto de Poços de Caldas e região, através da pesquisa, educação ambiental e manutenção de um acervo, em observação aos preceitos legais e científicos, contribuindo para a meta global de manutenção da biodiversidade para as futuras gerações. A instituição foi criada pela Lei Municipal Complementar nº 37, de 25 de julho de 2003, iniciando suas operações em 11 de outubro de 2003 pelo Decreto Municipal nº 7552 e busca ser referência em educação ambiental, pesquisa, conservação e manejo de plantas, com ênfase na flora regional.

A Fundação Jardim Botânico de Poços de Caldas obteve destaque durante a participação na Reunião da Rede Brasileira de Jardins Botânicos por constituir o mais jovem jardim botânico do Brasil, o segundo no estado de Minas Gerais e o único a seguir todas as normas de conservação desde a sua criação.

Estrutura física

O Jardim Botânico de Poços de Caldas conta com uma área de aproximadamente 50 hectares para sua implantação, localizada às margens do Ribeirão das Antas, na porção oeste do município. As áreas foram obtidas através de doações (Irmãos Ribeiro e Prefeitura Municipal de Poços de Caldas), apresentando remanescentes de campos nativos e matas ciliares.

A Fundação recebeu em doação uma verba de R$ 750.000,00 (Alcoa Foundation) para a execução dos edifícios pioneiros. Estas edificações atenderão às necessidades administrativas, de pesquisa e de educação ambiental por um período de aproximadamente cinco anos, sendo prevista a necessidade de expansão das estruturas físicas após esse período. 

Política de coleções de plantas vivas

Alguns jardins botânicos brasileiros estabeleceram suas próprias políticas de coleções, entretanto, existe uma política de coleções que é sugerida pela Rede Brasileira de Jardins Botânicos. Esta será a política de coleções adotada pelo Jardim Botânico de Poços de Caldas durante sua implantação.

A adoção desta política de coleções declara a intenção do Jardim Botânico de Poços de Caldas de colaborar com os esforços internacionais para conservação de espécies desde o início de suas atividades, em concordância com a Rede Brasileira de Jardins Botânicos, que ao oferecer uma sugestão de política de coleções busca promover a integração entre as atividades dos diversos jardins botânicos brasileiros.

Implantação das coleções vivas

Por definição, um jardim botânico deve abrigar “coleções de plantas vivas cientificamente reconhecidas, organizadas, documentadas e identificadas, com a finalidade de estudo, pesquisa e documentação do patrimônio florístico do país, acessível ao público, no todo ou em parte, servindo à educação, à cultura, ao lazer e à conservação do meio ambiente (Resolução CONAMA nº 266, de 03 de agosto de 2000)”.

O Jardim Botânico de Poços de Caldas vem desenvolvendo alguns estudos para estabelecer o planejamento do manejo de coleções vivas, sendo que nesta etapa inicial mostrou-se fundamental obter respostas às seguintes perguntas: o que teremos e por que teremos? Ou seja, quais espécies deverão compor a coleção de plantas vivas do Jardim Botânico de Poços de Caldas? 

Resgate histórico

A conversão de áreas naturais em pastagens para fins de agropecuária sempre foi marcante em todo o planalto de Poços de Caldas. Há registros de atividade minerária e pastoril desde o século XVIII (Williams et al., 2001). Pimenta (1998) cita “o desbravamento da região pelos bandeirantes e mineiros durante o ciclo do ouro e o início da ocupação induzida pelo ciclo pastoril em meados do século XVIII”, de modo que a paisagem original da região começou a ser modificada desde então. Assim, obter uma relação das espécies vegetais que ocorriam no planalto durante esse período mostrou-se um meio eficiente para a seleção das espécies que deveriam compor a primeira coleção de plantas do Jardim Botânico de Poços de Caldas, uma vez que essas espécies poderiam ser consideradas como nativas e originais da região, não tendo sido introduzidas para fins econômicos e nem extintas por queimadas para rebrota da pastagem. 

Para tal, iniciou-se uma busca na literatura botânica à procura de obras que trouxessem informações sobre a flora original do planalto.

Para a reconstrução da fisionomia da região sudeste do Brasil, existem documentos de inestimável valor botânico e histórico elaborados por naturalistas que percorreram o Brasil no século XIX, como Maximillian Prinz zu Wied-Neuwied (Reise nach Brasilien in den Jahren 1815 bis 1817, publicado em Frankfurt, em 1821), Johann Baptist von Spix (Avium Brasiliensium species novae, publicado em Munique, em 1824), Ferdinand Dénis (Brésil, publicado em Paris, em 1837), Johann Emanuel Pohl (Reise in Innen von Brasilien, publicado em Viena, em 1837), George Gardner (Travels in the interior of Brazil, principally through the northern provinces and the gold and diamond districts, during the years 1836-1841, publicado em Londes, em 1846), Auguste de Saint-Hilaire (Voyage dans les Provinces de Saint-Paul et de Sainte-Catherine, publicado em Paris, em 1851), Robert Avé-Lallemant (Reise Durch Süd-Brasilien in Jahre 1858), Louis Agassiz (Viagem ao Brasil: 1865-1866), Alberto Löfgren (Ensaio para uma distribuição dos vegetais nos diversos grupos florísticos do estado de São Paulo, publicado como boletim da Comissão Geográfica e Geológica do estado de São Paulo, em 1896).  Karl Friedrich Philipp von Martius, naturalista alemão, foi quem deu a maior contribuição para a botânica sistemática brasileira. Chegou ao Rio de Janeiro em 15 de julho de 1817, e junto com Johann Baptist von Spix, começou a explorar as matas do Rio de Janeiro, e depois o interior de São Paulo, Minas Gerais, Bahia e de todo o nordeste brasileiro, até a floresta amazônica, em quase três anos de viagens (Dário, 2004). Alguns destes ilustres cientistas registraram suas passagens pelas proximidades da região que atualmente é denominada de Planalto de Poços de Caldas, porém, era necessário resgatar a obra de algum naturalista que tivesse se dedicado particularmente à flora da região. Com o avanço daspesquisas em material bibliográfico e na internet, constatou-se que o botânico sueco Anders Fredrik REGNELL viveu em Caldas durante o período de 1840 a 1884, data de sua morte.

Vida e obra de Regnell

O médico e botânico sueco Anders Fredrik Regnell nasceu em 1807 na cidade de Estocolmo. Aos 17 anos, prestou exames para cursar medicina e matriculou-se na Universidade de Uppsala, onde se interessou pela botânica, graduando-se em 1837. Sofrendo de problemas cardíacos em conseqüência de um mal dos pulmões, em 1840 transferiu-se para o Brasil. Aqui chegando prestou exames na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, habilitando-se a exercer a medicina neste país. Fixou residência na cidade de Caldas, onde já residia Lourenço Westin, conterrâneo e ex-consul da Suécia no Brasil. Graças a sua educação e experiência clínica, Regnell conquistou uma sólida posição financeira, tendo adquirido uma propriedade agrícola com plantação de café.

Em Caldas exerceu a profissão de médico. Não esquecendo seu amor pela botânica, colheu amostras de plantas que enviava para o Jardim Botânico do Rio de Janeiro e para o Museu Botânico da Universidade de Uppsala e à Academia Real de Ciência de Estocolmo, em seu país natal. Durante mais de 40 anos dedicou-se ao estudo da flora mineira, mantendo em sua residência um herbário com milhares de espécies, classificadas por ele[1]. Financiou, ainda, muitas expedições de cientistas botânicos. Viveu em Caldas, onde exerceu a medicina de abril de 1841 até sua morte em 12 de setembro de 1884, deixando em testamento uma grande importância em dinheiro para a escola onde estudou para que a mesma montasse um herbário, que hoje tem seu nome: “Regnelliam Herbarium”. Em sua homenagem a Universidade deu seu nome a três gêneros: Regnellia (Orchidaceae), Neoregnellia (Sterculiaceae) e Regnellidium (Marsiliaceae), cunhou medalhões com sua esfinge e fez vir de navio, em 1903, uma lápide onde imortaliza este cidadão do mundo, sepultado em Caldas (Figura).

O Dr. André Regnell, como é conhecido em Caldas, deixou seu nome e sua lembrança no coração de toda a cidade que sente orgulho de ter sido escolhida para abrigar tão ilustre personagem (Pimenta, 1998 apud Anderberg, 2004).

O Herbário de Regnell

O “Regnelliam Herbarium” abriga material botânico originado da América do Sul, América Central e Caribe, contendo cerca de 400.000 espécimes. Os exemplares “tipo” (type material) compõem cerca de 25.000 espécimes, sendo que uma parte deste material encontra-se digitalizado e disponível em uma base de dados na internet (http://www.nrm.se/fbo/data/types.html.em). O Herbário Regnell possui importante acervo de material científico coletado pelo próprio Regnell, além de E. L. EkmanG. A. Malme e E. Asplund.

Graças aos esforços do médico e botânico Anders Fredrik Regnell, o Herbário Regnell possui atualmente uma das maiores coleções de plantas da América do Sul. Foram mais de 20 expedições de pesquisadores suecos à América do Sul, sendo a primeira em 1892-1894, conduzida por C. A. M. Lindman e G. A. Malme. As expedições dos botânicos do Herbário Regnell, associadas ao intenso intercâmbio de material botânico junto a outras instituições indicam que o Herbário Regnell encontra-se em constante crescimento. (Andenberg, 2004).

Levantamento das espécies coletadas por Regnell na região de Poços de Caldas durante o período de 1840 a 1884

Uma listagem parcial das espécies coletadas por Regnell na região de Caldas foi obtida através de pesquisa na base de dados disponível em http://www.nrm.se/fbo/data/types.html.en, site do Departamento de Botânica Fanerogâmica do Museu de História Natural da Suécia (Andenberg, 2004).

Para a obtenção desta listagem, realizou-se a pesquisa através da citação do local da coleta e do coletor, conforme formulário abaixo extraído do próprio site:

The database contains 21469 records.

For further information of this database, see the description.Enter your search word(s) in the input fields. You may use * to indicate rest of word, and single quotes to define a phrase (e. g. 'in campis siccis'). Boolean and, or, notoperators are allowed in the input field. The oroperator may be omitted. Use paranthesis for grouping. For help on seaches, see: Using the database.

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Scientific name

Family

Locality

Collector

Herbarium number

Max number of hits to return 

 

Os resultados obtidos através desta pesquisa preliminar são apresentados abaixo. Note-se que todos os exemplares tratam-se de tipos, sendo assim, manter uma coleção de plantas vivas no Jardim Botânico cujo germoplasma será proveniente de populações que foram utilizadas para descrever as espécies representa um valor inestimável para a Ciência Botânica. Esta contribuição à conservação de espécies e o resgate histórico da vegetação original da região de Poços de Caldas através dos trabalhos de REGNELL são os principais objetivos do projeto proposto. 

Um dos objetivos deste projeto é realizar pesquisas em Caldas para tentar resgatar parte deste material que eventualmente tenha permanecido na cidade

Saiba mais, faça o download: Coleção Regnell.PDF

 

 


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