Elas conversam?
Com o avanço das tecnologias, o excesso de telas, a aceleração das atividades cotidianas e o distanciamento das crianças de espaços públicos e naturais, discutir a relação entre brincar e a Educação Ambiental (EA) tornou-se uma questão urgente.
Como aponta Winnicott, “o brincar é uma experiência”. Com essa afirmação, pode-se erguer um paralelo comportamental direcionado à EA crítica, reajustando-a como uma ferramenta pedagógica, capaz de despertar sensibilidade, pertencimento e consciência ecológica. Um autor que se integra a um raciocínio interessante à ideia do Brincar é Huizinga, onde ele coloca, que
não é através da reflexão ou do raciocínio lógico que se consegue encontrar a resposta a uma pergunta enigmática. A resposta surge literalmente numa solução brusca, o desfazer dos nós em que o interrogador tem preso o interrogado (p. 82, 2019).
A ideia da teoria do brincar é essa reflexão que foge ao lógico; reúne reflexões de diferentes autores que compreendem a brincadeira como elemento essencial do desenvolvimento humano. Para pensadores como Jean Piaget, Lev Vygotsky e Donald Winnicott, o brincar está relacionado à aprendizagem, à criação simbólica e à elaboração da realidade. A brincadeira é a atividade principal da criança. É por meio dela que a criança interpreta o mundo, experimenta papéis sociais, desenvolve a imaginação e constrói conhecimentos.
Nas observações de Vygotsky, psicólogo russo, a brincadeira cria uma “zona de desenvolvimento proximal”, isto é, um espaço no qual a criança consegue vivenciar situações, relações e conhecimentos que ainda estão em processo de amadurecimento, no brinquedo, a criança está sempre acima da sua idade média, acima do seu comportamento diário; no brinquedo, é como se ela fosse maior do que é na realidade.
Em contrapartida, Piaget, compreendia o brincar como parte do desenvolvimento cognitivo, permitindo que a criança organize experiências, assimile informações e desenvolva estruturas mentais: "o jogo simbólico é uma assimilação do real ao eu; o jogo simbólico constitui o apogeu do jogo infantil." (Piaget, 1975, p.146 e p. 156). Embora Piaget enfatize os aspectos cognitivos do brincar e Vygotsky destaque sua dimensão social, ambos reconhecem a brincadeira como elemento essencial para o desenvolvimento infantil.
Quando essas contribuições são aproximadas da EA, o brincar passa a ser compreendido como uma prática que favorece experiências concretas, afetivas e significativas com o ambiente natural. Uma criança que brinca com a terra, observa insetos, planta sementes, coleta folhas ou inventa jogos com elementos naturais e desenvolve uma relação mais profunda com o espaço em que vive. Essa vivência contribui para a construção de vínculos afetivos com a natureza, aspecto fundamental para a formação de sujeitos mais sensíveis às questões socioambientais.
O educador e pesquisador Marcos Reigota afirma que a EA deve ir além da simples transmissão de informações ecológicas. Para ele, trata-se de uma educação política, crítica e cultural, voltada à transformação das relações entre sociedade e natureza. Com isso, o brincar pode ser compreendido como uma prática libertadora, capaz de aproximar os sujeitos do ambiente de maneira sensível, participativa e criativa.
O ato de brincar também possui uma dimensão coletiva importante. Muitas brincadeiras tradicionais ensinam convivência, cooperação, respeito às diferenças, escuta e senso de comunidade, aspectos fundamentais para a construção de uma consciência ambiental crítica. Afinal, cuidar do meio ambiente também significa aprender a viver coletivamente, reconhecendo que todos compartilham o mesmo espaço social, ecológico e cultural. Essa perspectiva dialoga com a Constituição Federal de 1988, que, em seu artigo 225, estabelece que o meio ambiente ecologicamente equilibrado é um direito de todos e um dever compartilhado entre o Poder Público e a coletividade, reforçando a necessidade de formar cidadãos conscientes de sua responsabilidade socioambiental desde a infância.
Outro ponto relevante é que a ludicidade rompe os modelos mecanizados de ensino. Em vez de uma educação baseada apenas na memorização de conteúdos, o brincar promove autonomia, curiosidade, imaginação e participação ativa dos estudantes. Nesse processo, o educador deixa de ocupar apenas o lugar de transmissor de informações e passa a atuar como mediador de experiências, favorecendo aprendizagens mais significativas.
Nas escolas, instituições de ensino e espaços de educação não formal, projetos de EA que incorporam oficinas, jogos, arte, música, contação de histórias, trilhas sensoriais e atividades corporais costumam gerar maior envolvimento dos estudantes. Isso ocorre porque o brincar mobiliza emoção, afetividade e experiência, elementos fundamentais para a aprendizagem, especialmente na infância.
Discutir o brincar hoje também significa refletir sobre os impactos da urbanização e da desigualdade social. Muitas crianças vivem em contextos em que faltam áreas verdes, espaços públicos seguros e oportunidades de contato com a natureza. A EA, nesse sentido, também pode atuar em defesa do direito à cidade, ao lazer, à infância e ao convívio com ambientes saudáveis.
A relação entre brincar e o meio ambiente revela que educar ecologicamente não é apenas ensinar sobre reciclagem, economia de água ou separação de resíduos. É formar sujeitos capazes de perceber a beleza, a complexidade e a fragilidade da vida. Ao brincar, a criança experimenta o mundo com o corpo, com a imaginação e com os sentidos. Por isso, integrar o brincar às práticas de EA é reconhecer que a formação ecológica começa também pelo encantamento, pela curiosidade e pelo vínculo afetivo com a natureza.
Diante do exposto, torna-se fundamental ampliar as oportunidades de aproximação da sociedade com espaços dedicados à conservação da biodiversidade e à promoção da EA. A Fundação Jardim Botânico de Poços de Caldas constitui um importante elo entre aprendizagem, pesquisa, sensibilização e interação entre sociedade e natureza, oferecendo atividades educativas voltadas à construção de valores. Assim, convida-se a comunidade, instituições de ensino, pesquisadores, educadores e demais interessados a conhecer e participar das ações de EA desenvolvidas pela Fundação Jardim Botânico, fortalecendo o compromisso coletivo com a conservação do patrimônio natural e com a formação de uma cidadania ambiental crítica e participativa.
Referências
BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília, DF: Presidência da República, 1988
BROUGÈRE, Gilles. Brinquedo e cultura. 8. ed. São Paulo: Cortez, 2010.
CARVALHO, Isabel Cristina de Moura. Educação ambiental: a formação do sujeito ecológico. 7. ed. São Paulo: Cortez, 2020.
HUIZINGA, Johan. Homo ludens: o jogo como elemento da cultura. Tradução de João Paulo Monteiro. 8. ed. São Paulo: Perspectiva, 2019.
KISHIMOTO, Tizuko Morchida (org.). O brincar e suas teorias. São Paulo: Cengage Learning, 2017.
PIAGET, Jean. A formação do símbolo na criança: imitação, jogo e sonho, imagem e representação. Rio de Janeiro: Zahar, 1975.
REIGOTA, Marcos. O que é educação ambiental. 2. ed. São Paulo: Brasiliense, 2017.
VYGOTSKY, Lev Semionovich. A formação social da mente: o desenvolvimento dos processos psicológicos superiores. 7. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2007.
WINNICOTT, Donald
Woods. O brincar e a realidade. Rio de Janeiro: Imago, 1975, p. 75.
Sobre a imagem: Alunos da Escola Municipal Professora Áurea Soares, explorando a caixa de fósseis durante uma visita guiada oferecida na instituição.
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